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Povos antigos do Peru modificavam crânio para imitar montanhas!
A tradição fazia parte das culturas collaguas e cavanas, povos vizinhos que viviam no Vale Colca, nas terras altas do Peru
Os crânios de bebês são naturalmente maleáveis nos primeiros meses de vida. Segundo cientistas, isso acontece, em primeiro lugar, para facilitar o parto. Outra vantagem da condição é permitir o crescimento do cérebro.
No livro The Mountain Embodied (a montanha incorporada), o antropólogo Matthew Velasco, da Universidade Cornell, nos Estados Unidos, detalha que os povos antigos do Peru sabiam disso. E que realizavam modificações cranianas nos recém-nascidos.
Testa inclinada era considerada uma característica vantajosa
Segundo reportagem do The New York Times, a tradição fazia parte das culturas collaguas e cavanas, povos vizinhos que viviam no Vale Colca, nas terras altas do Peru. O livro aponta que estas populações antigas, consideradas as primeiras da região, acreditavam que ter uma testa inclinada era uma característica vantajosa.
Durante o período de 1100 a 1450, os collaguas empregaram métodos para fazer com que suas cabeças assumissem uma forma mais longa e estreita. Os cavanas, por sua vez, tinham como objetivo tornar suas cabeças largas e achatadas. Com o tempo, o aspecto alongado dos collaguas tornou-se o estilo dominante de modificação craniana na região.

Essas alterações resultavam em crânios que imitavam as silhuetas de montanhas sagradas para suas respectivas culturas. Velasco cita um escriba e tradutor espanhol do século XVI que escreveu que os collaguas usavam chapéus altos sem aba e modelavam as formas de suas cabeças para homenagear um vulcão distante que consideravam seu lar ancestral. Já os cavanas esculpiam os crânios de seus bebês em tributo a um pico coberto de neve que se erguia sobre sua cidade.
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Modelagem dos crânios continuou durante o império inca
- Em um estudo de 2018, Matthew Velasco examinou os crânios de 213 humanos mumificados enterrados em dois cemitérios collagua.
- A partir destas análises, ele levantou a hipótese de que meninas e mulheres collagua com crânios modificados teriam tido acesso a uma variedade maior de alimentos e menor incidência de violência.
- No século XV, os incas incorporam a região ao seu império e até permitiram que a prática fosse mantida pelos locais.
- Segundo o pesquisador, isso contribuiu para disparidades sociais.
- Indivíduos com cabeças modeladas provavelmente assumiam funções específicas na economia agrícola e pastoril, que posteriormente conferiam direitos a terras e recursos.
- Dessa forma, a ampla adoção da modelagem craniana no século XIV parece ter servido para manter a riqueza dentro desses grupos.
- A tradição acabou sendo proibida pelos colonizadores espanhóis no século XVI.
Colaboração para o Olhar Digital
Alessandro Di Lorenzo é formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e atua na área desde 2014. Trabalhou nas redações da BandNews FM em Porto Alegre e em São Paulo.
Bruno Capozzi é jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP, tendo como foco a pesquisa de redes sociais e tecnologia.
Fonte:Olhar Digital
